sexta-feira, junho 17, 2005

8. Música para o Teatro de Mestre Gil Vicente

Gil Vicente, que faz os autos a elRei
(Auto da Festa, [f. 6 ]; Pastoril Castelhano, Compilaçam, f. 26 v)
Ao contrário do que sucede em Juan del Encina (c. 1498-1529/30), que só faz intervir as canções de sua autoria como remate de algumas das suas Éclogas, em Gil Vicente (fl. 1502-1536) a música - seja ela profana ou sacra, ou consista ainda em danças instrumentais ou em danças-cantadas - percorre toda a sua obra e faz parte integrante e activa da trama do seu teatro e do espaço cénico onde foi concebido. É indiscutível a presença quase constante da Música nos seus autos, revelando-nos assim um conhecimento seguro e profundo da prática musical do seu tempo. Como nos diz acertadamente Albin Eduardo Beau, "[...] em Gil Vicente, a música não é somente elemento acessório, senão também e propriamente cénico, e a sua função não é somente a de criar, como também a de exprimir ambientes sentimentais e psíquicos." Desta opinião comunga também López Castro quando afirma que:
Todo el Teatro de Gil Vicente está impregnado de música. [...] Por eso, la canción no es un mero adorno, sino
cumple una función ascénica: sirve para crear ambiente, desarrollar la intriga y caracterizar psicologicamente a los personasjes. [...] Gil Vicente incorpora la canción al drama. La canción es parte integrante en la elaboración de la pieza dramática, acompañando a la acción y expresando los sentimientos de las personajes.
As canções cortesãs utilizadas no teatro de Meste Gil são as do repertório corrente na Península Ibérica nos finais do séc. XV e primeira metade do XVI, de que o padrão será talvez o vilancete Nunca fué pena mayor, de Juan Urrede (ou Urreda, ou ainda JohannesWreed), compositor flamengo que esteve ao serviço da corte espanhola entre 1470 e 1480, tendo sido escrita sobre um belíssimo poema do primeiro duque de Alba, D. García Álvarez de Toledo (m. 1488) . Esta peça teve uma fama nunca igualada em toda a Península, sendo citada em três autos vicentinos (Barca da Glória, Cortes de Jupiter e Frágua d'Amor). A sua música (escrita a quatro vozes) encontra-se registada no célebre Cancionero Musical de Palacio (CMP), copiado durante o reinado dos Reis Católicos. Outras das peças paradigmáticas que encontramos inseridas nos seus autos deve-se a Pedro de Escobar (alias Pedro do Porto (Porto, c. 1465-Évora, c. 1535), cujo vilancete (também a três vozes ou partes) Lo que queda es lo seguro é, sem dúvida, uma pequena obra-prima da canção cortesã deste período. É mencionado na Barca da Glória, podendo ser encontrada tanto no citado CMP, como no Cancioneiro Musical d'Elvas (CME), copiado a meados de Quinhentos (segundo a opinião de outros musicólogos, no terceiro quartel do séc. XVI), como ainda no Cancioneiro Musical da Biblioteca da Escola Superior de Belas-Artes de Paris (CMBP). O texto desta composição é da autoria do poeta espanhol Garcí Sánchez de Badajoz (c. 1460-c. 1526).
Infelizmente não conseguimos ainda identificar todas as canções mencionadas nas obras de Gil Vicente. Contudo, no estado actual da investigação vicentina é já possível dispor de um corpus assaz significativo deste repertório. Mesmo assim, só para um número bastante reduzido de 47 poesias pudemos encontrar a música correspondente.
Deste significativo repertório gostariamos de salientar o romance Ninha era la infanta, de autor anónimo, incluído nas Cortes de Jupiter (Compilaçam, f. 169: Niña era la iffanta [...] ,"Este romance cantam os planetas a quatro vozes, pera com as palavras delle & musica desencantarem a Moura Tais de seu encantamento, [...]"), tendo sido escrito expressamente para festejar "a partida da ilustrissima senhora iffanta dona Breatiz duquesa de Saboya" (1504-1538; filha de D. Manuel I). "Foy representada nos paços da ribeyra na cidade de Lixboa. Era de M.D.xjx.". Este romance recentemente descoberto num cancioneiro poético-musical português, foi por mim intitulado Cancioneiro Musical da Biblioteca Nacional (CMBN, P-Ln, CIC, n.º 60, anotado entre 1530-1550; cf. BN Digital; Memórias da Música, aqui designado por: "Colectânea de música vocal dos séculos XV e XVI").
Para clausular este texto gostaria de levantar a questão, tão candente quanto intrigante, de saber quem cantaria e tangeria a música requerida nos autos de Mestre Gil, e de que meios - tanto vocais como instrumentais - dispôs o nosso grande dramaturgo? Várias hipóteses podem para já ser adiantadas:
  1. ou eram os próprios actores que interpretavam vocal e instrumentalmente as canções e danças requeridas;
  2. ou eram músicos profissionais contratados pontualmente para cada auto;
  3. ou ainda, eram alguns dos cantores e tangedores que trabalhavam na corte, tais como os da capela ou, mais provavelmente, os que serviram na câmara real de D. Manuel I e D. João III.
Bibliografia:
Alain Eduard Beau,
A Música na obra de Gil Vicente. Coimbra: Edições de Biblos, 1939; separata de Biblos, XIV (1938), pp. 329-355.
Armando López Castro, Gil Vicente: Lírica. Madrid: Cátedra, 1993, pp. 30, 42 2 44.
Manuel Morais,
La Obra Musical de Juan del Encina. Salamanca: Centro de Cultura Tradicional / Diputación Provincial de Salamanca, 1997.
Manuel Morais, Vilancetes, Cantigas e Romances do Século XVI. Transcrição e estudo de [...]. Lisboa: F.C.G./Serviço de Música, 1986. Portugaliae Musica, Série A, vol. XLVII, pp. viii-x e xc-xci; n.º 5.
Manuel Morais, Antologia de Música para o Teatro de Gil Vicente: vilancetes, cantigas, romances e danças. Introdução, selecção e renotação de [...]. Estar / Centro de História da Arte-UE, 2002.
Manuel Morais, "Música para o Teatro de Gil Vicente (
fl. 1502-1536)". Gil Vicente 500 anos Depois. Actas do Congresso Internacional realizado pelo Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, vol. II, pp. 45-115.

2 Comments:

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8:16 da manhã  
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estou a estudar Teatro na República Checa e para a cadeira de teatro Musical o Professor pediu-me uma pesquisa sobre a música em Gil Vicente, de facto aqui não há muita bibliografia disponível sobre o assunto e era bom se pudesse dar-me algumas luzes. muito muito obrigada.

5:17 da tarde  

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